O programa Caminhos da Reportagem exibe, nesta segunda-feira
(16/03), o episódio “Gnaisse facoidal, a rocha do Rio”. A atração jornalística,
que vai ao ar às 23h, na TV Brasil, mostra a relação dessa pedra com os
cariocas e com a cidade.
Há quase 600 milhões de anos, a colisão das placas
sul-americanas e africanas forjou o gnaisse facoidal, uma rocha metamórfica que
molda monumentos geológicos que fazem parte da paisagem natural do Rio de
Janeiro.
O programa passeia por monumentos naturais compostos pela
rocha, como o Pão de Açúcar, o morro da Urca, o pico do Corcovado e as pedras
do Sal e do Arpoador, mostrando personagens ligados a cada um desses locais.
“A morfologia do Rio de Janeiro é única no mundo. Assim como
tem o Grand Canyon, como tem o Himalaia, os Alpes, o Rio de Janeiro é uma
formação geológica única, com pontões rochosos, pães de açúcar, pináculos, de
feições extraordinárias, o Dois Irmãos, o Corcovado, o Pão de Açúcar. São
desenhos morfológicos, geomorfológicos únicos e muito interessantes. E, por
isso, [é] a Cidade Maravilhosa. Esse nome que ela recebe tem muito a ver com
essa paisagem montanhosa”, destaca o geógrafo da Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Marcelo Motta.
Montanhista desde 2008, Ricardo Barros conhece bem morros
como Pão de Açúcar e o Corcovado, já que passou toda sua vida entre as cidades
do Rio e Niterói, outra cidade que conta com inúmeras formações rochosas
compostas por gnaisse facoidal. “É um privilégio nascer e viver aqui no Rio e
Niterói. Já viajei para alguns outros cantos, mas nunca achei nada igual ao Rio
de Janeiro e Niterói, onde você consegue subir uma montanha, descer e dar um
mergulho no mar. Ou até mesmo subir com o mar nas suas costas. Em outros
estados, outras cidades mais distantes, é comum as pessoas viajarem uma hora
até chegarem numa montanha. Aqui a gente, em uma hora, passa por seis, sete
montanhas imensas”, conta Barros ao Caminhos da Reportagem.
A geóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
Katia Mansur, explica que o gnaisse facoidal surgiu na colisão de África e
Brasil, mas os monumentos formados pela rocha só afloraram com a separação das
duas massas continentais, há cerca de 130 milhões de anos atrás. “Com o tempo,
[o gnaisse facoidal] vai subindo e o que acontece? Vai se formando umas cascas,
como se fosse uma cebola, esse material que forma da casca começa a soltar e
vai formando então esses corpos meio arredondados”, resume.
Ponto de encontro de sambistas desde o início do século XX,
quando descendentes de escravizados vindos da Bahia passaram a se reunir no
local, a Pedra do Sal é um dos monumentos rochosos visitados pela produção do
Caminhos da Reportagem. “Você vai ter esse processo de separação do Gondwana, o
aparecimento da América e da África. Milhões de anos vão passar, você vai ter
esse triste processo de escravidão, onde a gente embarcava nos negreiros. O que
explica, milhões de anos depois, você ter essa reconexão? Isso não pode ser à
toa, você ter uma desconexão geológica e uma reconexão cultural”, conta o
professor Walmir Pimentel, que se apresenta nas rodas de samba que reúnem
várias pessoas todas as semanas na Pedra do Sal.
Por ser uma rocha onipresente nos arredores da Baía de
Guanabara, o gnaisse facoidal foi também uma das principais matérias-primas
para a construção civil na cidade do Rio de Janeiro desde os primeiros anos da
colonização portuguesa. O resultado disso são inúmeros monumentos
arquitetônicos compostos pela rocha e visitados pelo programa, como a Fortaleza
São João, do século XVI, e o Palácio Gustavo Capanema, do início do século XX.
Sua importância para a paisagem carioca e para a arquitetura
da cidade foi reconhecida pela União Internacional de Ciências Geológicas
(IUGS), que, em 2024, declarou-a Pedra Patrimônio, a única brasileira a ter
esse reconhecimento e a se juntar a outras rochas como o calcário lioz, de
Portugal, e o mármore carrara, da Itália. “Estamos em uma época que está
começando a se conceber o tema da geoconservação. O mundo [precisa] conservar a
natureza e também conservar a parte geológica, para que não se perca, para o
futuro, [o conhecimento de] como se deu a história da Terra”, diz a engenheira
de minas Núria Castro.